Resistência à Insulina na Mulher: Sintomas e Como Controlar

Rita Silva
Rita Silva

Muitas vezes silenciosa, a resistência à insulina liga-se ao ovário poliquístico e à menopausa. Sabe como responder com alimentação, treino e sono.

Mulher a picar o dedo com um dispositivo de punção para medir a insulina

Acumulação de gordura na zona abdominal, falta de energia depois das refeições e análises com valores “no limite” que ninguém valoriza? Por trás de queixas assim pode estar um mecanismo silencioso: a resistência à insulina.

É uma alteração metabólica em que as células do organismo se tornam menos sensíveis à insulina, a hormona que gere o açúcar no sangue. Além de ser um problema comum, é muitas vezes reversível, e nas mulheres tem particularidades importantes pela ligação ao equilíbrio hormonal. Vamos perceber o que é, como se manifesta e o que se pode fazer.

O que acontece quando existe resistência à insulina?

A insulina é uma hormona produzida pelo pâncreas que desempenha um papel fundamental na regulação da glicemia, facilitando a entrada da glicose nas células para ser utilizada como fonte de energia1

Quando as células respondem mal a esse sinal, o pâncreas compensa, produzindo mais insulina. Durante algum tempo, esta compensação é suficiente para manter a glicemia dentro de valores normais – razão pela qual se pode ter resistência à insulina e níveis elevados desta hormona (hiperinsulinemia), muito antes de a glicose em jejum acusar qualquer alteração1. Esta fase silenciosa é a melhor janela de oportunidade para intervir.

O problema surge quando o pâncreas já não consegue acompanhar a necessidade de compensação. A glicemia sobe e abre caminho à pré-diabetes e, com o tempo, à diabetes tipo 22. Se não for controlada, a resistência à insulina agrava ainda o risco cardiovascular1.

Quais são os principais sinais de resistência à insulina?

Nenhum destes sinais, por si só, diagnostica resistência à insulina, mas em conjunto justificam uma avaliação:

  • Aumento da gordura abdominal e dificuldade na gestão do peso;
  • Alterações da glicemia e do perfil lipídico (os valores do colesterol e triglicéridos);
  • Acantose nigricans, manchas de pele mais escura e espessa, sobretudo no pescoço e nas axilas.

Nas mulheres com síndrome do ovário poliquístico, a atualmente designada SOMP (Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina) podem surgir também irregularidade menstrual, alterações da ovulação, dificuldades de fertilidade, acne e hirsutismo (o crescimento de pelo em zonas de padrão masculino, como o rosto ou o peito)3.

Como é avaliada a resistência à insulina?

O diagnóstico não depende de um teste isolado. A avaliação deve medir glicemia e insulina em jejum, o índice HOMA-IR (um cálculo que estima a resistência à insulina a partir desses dois valores), a hemoglobina glicada (que reflete a média do açúcar dos últimos meses), o teste de tolerância à glicose, quando indicado, e o perfil lipídico4.

O HOMA-IR, por exemplo, é muito utilizado, mas não tem um ponto de corte universal – o mesmo valor pode ser interpretado de forma diferente consoante a população5. Daí a importância de consultar um profissional de saúde, e não fazer uma comparação apressada com valores de referência.

A ligação da resistência à insulina ao ovário poliquístico

A resistência à insulina é frequentemente observada em mulheres com SOMP, ainda que a prevalência varie conforme os critérios e a população estudada5.

O mecanismo é encadeado, e ajuda a perceber porque é que controlar uma condição melhora a outra. O excesso de insulina estimula os ovários a produzir mais androgénios (hormonas de perfil masculino, como a testosterona) e, ao mesmo tempo, reduz uma proteína chamada SHBG, que normalmente mantém essas hormonas "presas" e inativas. Com menos SHBG, sobra mais testosterona livre em circulação – o que se traduz em acne, hirsutismo e ciclos menstruais irregulares3.

Estabelece-se assim um círculo entre resistência à insulina, excesso de insulina, excesso de androgénios e disfunção da ovulação, que torna a SOMP uma condição ainda mais complexa6. Importa reter que a resistência à insulina também surge em mulheres sem excesso de peso, embora a gordura visceral (a gordura que se acumula em volta dos órgãos) tenda a agravar a disfunção metabólica7.

O que muda depois da menopausa

A transição para a menopausa reconfigura o metabolismo: altera a composição corporal e aumenta a tendência para acumular gordura visceral. Em conjunto com a redução dos estrogénios, estas mudanças contribuem para a perda de sensibilidade à insulina e fazem subir o risco cardiometabólico8.

É por isso que, nesta fase da vida, três coisas passam a contar ainda mais: o padrão alimentar, a atividade física e a preservação da massa muscular – que é um dos maiores aliados no controlo da glicose.

Como melhorar a sensibilidade à insulina?

A boa notícia é que a resistência à insulina responde muito bem a mudanças no estilo de vida, sobretudo na alimentação e no exercício – e esta é a intervenção com maior suporte científico4,9.

1. Praticar exercício físico

Os músculos são os principais consumidores de glicose, e gerem-na melhor quando estão mais ativos. O treino de força permite construir e manter a massa muscular, criando “oportunidade” para a utilização do açúcar. Já o exercício aeróbio traz benefícios metabólicos, e por isso a combinação dos dois é a fórmula mais eficaz: em mulheres com SOMP, o treino combinado mostrou melhorias na insulina, no HOMA-IR e em vários parâmetros hormonais10.

2. Cuidar da alimentação

A alimentação é decisiva, sobretudo quando favorece uma composição corporal mais saudável e privilegia alimentos pouco processados. A dieta mediterrânica é a que reúne evidência mais consistente: muitos hortícolas, fruta, leguminosas, cereais integrais e gorduras insaturadas, com poucos açúcares adicionados, refrigerantes e refinados11.

Mais do que eliminar os hidratos de carbono, a estratégia passa por ajustar a sua qualidade, quantidade e distribuição ao longo do dia, sempre à luz das necessidades individuais. Uma estratégia estruturada e adaptada produz melhores resultados do que recomendações genéricas9 – daí que o acompanhamento em consulta de nutrição funcional possa ser decisivo.

3. Dormir bem e gerir o stress

Dormir pouco ou mal e viver em stress crónico pioram a sensibilidade à insulina, e não apenas pelo aumento indireto do peso corporal12. Estudo mostram que basta reduzir as horas de sono durante alguns dias para a insulina em jejum e o HOMA-IR subirem13.

O stress agrava este processo por dois caminhos: piora o sono e ativa mecanismos biológicos ligados à resistência à insulina – maior atividade do sistema nervoso simpático, alterações do cortisol, aumento de ácidos gordos livres e inflamação14. Criar rotinas de descanso e de gestão de stress é essencial para o tratamento da resistência à insulina.

4. Os suplementos podem ajudar

A suplementação alimentar pode ter um papel complementar, mas nunca de substituição, e a eficácia depende sempre do suplemento e do contexto clínico.

Os resultados mais promissores vêm dos probióticos, prebióticos e simbióticos e do mio-inositol, sobretudo em mulheres com SOMP9,15. Outros suplementos, como a vitamina D, curcumina, o crómio e o ómega-3, podem beneficiar alguns parâmetros metabólicos, mas a evidência é menos consistente16. No caso da SOMP, a N-acetilcisteína (NAC) tem também sido estudada pelo seu efeito na sensibilidade à insulina.

Em qualquer caso, a suplementação deve ser individualizada e complementar a alimentação e o exercício físico.

A resistência à insulina é uma alteração metabólica complexa

A resistência à insulina é uma alteração metabólica complexa, que afeta as mulheres de formas diferentes ao longo da vida – com particular relevância na Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (síndrome do ovário poliquístico) e depois da menopausa. Mas não é uma sentença, e responde a mudanças que estão ao nosso alcance.

A evidência científica aponta na mesma direção: uma abordagem integrada e personalizada, com uma alimentação equilibrada, exercício regular, bom sono e stress sob controlo. Se reconheceste alguns dos sinais deste artigo, o passo seguinte é uma avaliação individualizada – marca hoje uma consulta de Nutrição Funcional na Bioself.

Referências

  1. Szablewski L. Changes in Cells Associated with Insulin Resistance. Int J Mol Sci. 2024;25(4):2397.
  2. Młynarska E, Czarnik W, Dzieża N, et al. Type 2 Diabetes Mellitus: New Pathogenetic Mechanisms, Treatment and the Most Important Complications. Int J Mol Sci. 2025;26(3):1094.
  3. Amisi C. Markers of insulin resistance in polycystic ovary syndrome women: an update. World J Diabetes. 2022;13(3):129–149.
  4. Mir MM, Jeelani M, Alharthi M, et al. Unraveling the Mystery of Insulin Resistance: From Principle Mechanistic Insights and Consequences to Therapeutic Interventions. Int J Mol Sci. 2025;26(6):2770.
  5. Prosperi S, Chiarelli F. Insulin resistance, metabolic syndrome and polycystic ovaries: an intriguing conundrum. Front Endocrinol. 2025;16:1669716.
  6. Armanini D, Boscaro M, Bordin L, Sabbadin C. Controversies in the Pathogenesis, Diagnosis and Treatment of PCOS: Focus on Insulin Resistance, Inflammation, and Hyperandrogenism. Int J Mol Sci. 2022;23(8):4110.
  7. Ciarambino T, Crispino P, Guarisco G, Giordano M. Gender Differences in Insulin Resistance: New Knowledge and Perspectives. Curr Issues Mol Biol. 2023;45(10):7845–7861.
  8. Zhao X, An X, Yang C, et al. The crucial role and mechanism of insulin resistance in metabolic disease. Front Endocrinol. 2023;14:1149239.
  9. Moslehi N, Zeraattalab-Motlagh S, Rahimi Sakak F, et al. Effects of nutrition on metabolic and endocrine outcomes in women with polycystic ovary syndrome: an umbrella review of meta-analyses of randomized controlled trials. Nutr Rev. 2022.
  10. Nasiri M, Monazzami A, Alavimilani S, Asemi Z. Modulation of hormonal, metabolic, inflammatory and oxidative stress biomarkers in women with polycystic ovary syndrome following combined training: a randomized controlled trial. BMC Endocr Disord. 2025;25.
  11. Caretto A, Zanardini A, Frontino G, Pedone E. Targeting Insulin Resistance Through Nutrition: Pathophysiological Insights and Dietary Interventions. Nutrients. 2026;18(7):1119.
  12. Zuraikat FM, Laferrère B, Cheng B, et al. Chronic Insufficient Sleep in Women Impairs Insulin Sensitivity Independent of Adiposity Changes. Diabetes Care. 2023.
  13. Sondrup N, Termannsen A-D, Eriksen JN, et al. Effects of sleep manipulation on markers of insulin sensitivity: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Sleep Med Rev. 2022;62:101594.
  14. Rogers EM, Banks NF, Jenkins NDM. The effects of sleep disruption on metabolism, hunger, and satiety, and the influence of psychosocial stress and exercise: a narrative review. Diabetes Metab Res Rev. 2023;40.
  15. Wang R, Huang K, Wang M-Y, et al. Efficacy of dietary supplements as an adjunctive therapy for polycystic ovary syndrome: an umbrella meta-analysis. Front Nutr. 2025;12:1705284.
  16. Fong C, Alesi S, Mousa A, et al. Efficacy and Safety of Nutrient Supplements for Glycaemic Control and Insulin Resistance in Type 2 Diabetes: An Umbrella Review and Hierarchical Evidence Synthesis. Nutrients. 2022;14(11):2295.
26 Agosto 2026

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