GABA e Stress: Porque nos sentimos sempre acelerados?

Rita Silva
Rita Silva

Sentes a mente sempre acelerada? Descobre o papel do GABA no controlo do stress e da ansiedade, e como o eixo intestino-cérebro pode devolver-te a calma.

Mulher sentada às mesa a trabalhar num portátil, com as mãos na cabeça, com a sensação de stress.

Sentes a mente sempre acelerada, mesmo quando o corpo já pede descanso? O cérebro funciona através de um equilíbrio delicado entre os sinais que o excitam e os que o travam. Quando esse equilíbrio se desregula, o organismo entra em hiperatividade mental e hipervigilância, e instalam-se a tensão e ansiedade, com impacto na saúde mental.

Para este “travão biológico” funcionar bem, precisamos do GABA – ácido gama-aminobutírico -, o principal neurotransmissor inibitório do sistema nervoso central. Nos últimos anos, a ciência tem mostrado que as alterações no sistema GABAérgico estão associadas a ansiedade, stress crónico, depressão, perturbações do sono e alterações do eixo intestino–cérebro1,2. Ao mesmo tempo, começam a surgir estratégias integrativas promissoras que envolvem nutrição, microbiota intestinal, exercício físico e determinados compostos bioativos.

O papel do GABA na regulação da ansiedade

O GABA atua como um sistema de travagem dos neurónios. A sua principal função é reduzir a excitabilidade excessiva do cérebro e modular a forma como respondemos ao stress. Esta ação concentra-se sobretudo na amígdala, no hipocampo, no córtex pré-frontal e no hipotálamo – as regiões cerebrais associadas ao medo, ao stress e ao controlo do comportamento1,3.

Quando a atividade do GABA diminui, o cérebro torna-se mais reativo às ameaças e mais vulnerável à ansiedade. Estudos de neuroimagem têm demonstrado que as pessoas com perturbações de ansiedade, depressão major ou stress pós-traumático apresentam, com frequência, níveis reduzidos de GABA em várias zonas cerebrais2,4.

É por isso que muitos dos medicamentos ansiolíticos clássicos – como as benzodiazepinas, uma família de calmantes muito prescrita – funcionam através do reforço da ação inibitória do GABA no sistema nervoso⁵˒⁶.

Porque é que o stress crónico pode "desregular" o GABA?

O stress persistente desequilibra, pouco a pouco, a balança entre os neurotransmissores que excitam e os que acalmam o cérebro. A exposição prolongada ao cortisol (a hormona do stress), a inflamação de baixo grau, as alterações epigenéticas (mudanças na forma como os genes são "ligados" e "desligados") e as experiências de stress precoce podem afetar a produção, a libertação e a sensibilidade ao GABA3,7.

Isto ajuda a explicar porque tantas pessoas desenvolvem sintomas como:

  • Sensação constante de alerta;
  • Dificuldade em "desligar" a mente;
  • Sono leve e pouco reparador;
  • Maior reatividade emocional;
  • Tensão muscular;
  • Fadiga mental;
  • Queixas digestivas associadas à ansiedade.

Estudos mais recentes identificaram também alterações na atividade dos neurónios GABAérgicos em regiões ligadas à motivação e à resposta emocional ao stress8.

O eixo intestino–cérebro e a produção de GABA

Uma das áreas mais promissoras da investigação atual envolve a relação entre a microbiota intestinal e a saúde mental – ao chamado "eixo intestino–cérebro", uma espécie de linha de comunicação de duplo sentido entre a barriga e a cabeça.

Hoje sabemos que algumas bactérias intestinais conseguem produzir GABA⁹. Estirpes dos géneros Lactobacillus e Bifidobacterium (presentes em muitos alimentos fermentados e probióticos) parecem ter aqui um papel especialmente relevante. Revisões recentes descrevem mesmo o GABA como um possível mediador-chave deste eixo, influenciando a ansiedade, o humor, a resposta ao stress e a qualidade do sono10.

Atenção: isto não quer dizer que a ansiedade seja "causada pelo intestino". Significa, sim, que o estado da microbiota intestinal pode influenciar de forma relevante o equilíbrio neuroquímico e inflamatório do organismo.

Neste contexto, vários fatores podem criar um ambiente menos favorável ao GABA: o desequilíbrio da microbiota intestinal (a chamada disbiose), uma alimentação inflamatória, a falta de sono, o stress crónico, o excesso de álcool ou os défices nutricionais.

Que alimentos são naturalmente ricos em GABA?

Para quem quer começar a reduzir o stress pelo prato, há boas notícias. Vários alimentos do dia a dia contêm GABA de forma natural:

  • Cereais integrais, sobretudo o arroz integral ou germinado, a aveia e o trigo germinado, além de pseudo-cereais como o trigo-sarraceno e a quinoa, e ainda as leguminosas11;
  • Frutas e legumes como o morango, a lichia, a batata, os espargos e o espinafre12;
  • Cogumelos e alguns produtos de origem animal (ovos, leite, mel), ainda que em quantidades geralmente menores13.

Importa também perceber que o GABA não trabalha sozinho. A sua produção e regulação dependem de vários nutrientes de apoio, como o magnésio14, a vitamina B615 e a glutamina16.

O magnésio merece destaque especial, uma vez que participa na modulação da excitabilidade dos neurónios e na regulação dos recetores de GABA. A literatura sugere que níveis insuficientes deste mineral podem estar associados a maior vulnerabilidade ao stress e a sintomas de ansiedade14. As orientações da ESPEN (a Sociedade Europeia de Nutrição Clínica e Metabolismo) reforçam igualmente a importância clínica dos micronutrientes na função neurológica e na resposta do corpo ao stress metabólico17. A vitamina D também pode dar uma ajuda, contribuindo para reequilibrar a relação entre excitação e inibição no cérebro18.

E não te esqueças de "alimentar" a microbiota intestinal através de alimentos fermentados e fibras. O GABA produzido pela microbiota e pelos alimentos fermentados pode funcionar como um "pós-biótico", ajudando a modular ansiedade, humor e stress ao longo do eixo intestino–cérebro10.

A suplementação com GABA funciona?

Durante muitos anos, o consenso científico foi de que o GABA, tomado em suplemento alimentar oral, não conseguia ultrapassar a barreira hematoencefálica – o filtro de segurança que controla rigorosamente o que chega ao cérebro – e que, por isso, a suplementação seria pouco útil.

A resposta, no entanto, poderá estar numa via indireta. Em vez de chegar diretamente ao cérebro, o GABA pode atuar sobre os recetores presentes no intestino e no chamado sistema nervoso entérico. É a partir daí que a sinalização de calma viaja até à cabeça, sobretudo através do nervo vago – a principal autoestrada de comunicação entre o intestino e o cérebro. Por outras palavras: o GABA poderá influenciar o cérebro "de baixo para cima", ao longo do eixo intestino–cérebro²˒¹⁰.

Ainda faltam ensaios clínicos em larga escala para confirmar estes efeitos, mas alguns resultados são animadores. Num ensaio clínico rigoroso (randomizado e duplamente cego), a suplementação com 200 mg/dia de GABA durante 90 dias, em mulheres sedentárias com excesso de peso e combinada com exercício físico, melhorou¹⁹:

  • A eficiência do sono;
  • O estado emocional negativo;
  • Os sintomas depressivos;
  • A variabilidade da frequência cardíaca, um indicador de que o sistema nervoso está mais em modo de "descanso e recuperação".

Estes resultados sugerem que o GABA poderá ter um papel de apoio ao equilíbrio emocional, sobretudo quando integrado numa estratégia global de estilo de vida. Ainda assim, é importante manter a prudência: a suplementação não substitui o acompanhamento clínico, a psicoterapia ou o tratamento médico quando estes são necessários.

Estratégias naturais que podem apoiar o equilíbrio do GABA

Do ponto de vista da nutrição funcional, o objetivo raramente passa por "aumentar o GABA" de forma isolada. O mais importante é criar um ambiente em que o corpo consiga manter o seu próprio equilíbrio neuroquímico.

A ciência atual aponta benefícios potenciais de hábitos como:

  • Exercício físico regular;
  • Exposição à luz natural;
  • Sono de qualidade;
  • Técnicas de relaxamento e respiração;
  • Alimentação anti-inflamatória;
  • Cuidado da flora intestinal;
  • Redução do álcool e dos ultraprocessados;
  • Correção de défices nutricionais.

A par destes hábitos, há também quem procure ferramentas naturais complementares para ajudar a abrandar a aceleração mental, como os florais de Bach

Uma visão mais integrada da ansiedade

Hoje sabemos que a ansiedade e o stress não dependem apenas de "força de vontade" ou de fatores psicológicos isolados. Existe uma interação complexa entre cérebro, sistema nervoso, hormonas, imunidade, microbiota intestinal e metabolismo.

O sistema GABAérgico surge precisamente como um dos principais pontos de ligação entre todos estes sistemas. Por isso mesmo, a investigação recente tem procurado abrir caminho para abordagens mais integradas, em que as estratégias convencionais – como a medicação e a psicoterapia – coexistem com as intervenções nutricionais, a regulação do estilo de vida e a modulação do eixo intestino–cérebro.

Mais do que procurar soluções rápidas, o caminho passa por restaurar, aos poucos, o equilíbrio fisiológico que sustenta aquilo de que todos precisamos: a sensação de segurança, calma e capacidade de adaptação ao stress.

Próximos Passos para a Tua Saúde

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Referências

  1. Arora, I., Mal, P., Arora, P., Paul, A., & Kumar, M. (2024). GABAergic implications in anxiety and related disorders.. Biochemical and biophysical research communications, 724, 150218 . https://doi.org/10.1016/j.bbrc.2024.150218
  2. Liwinski, T., Lang, U., Brühl, A., & Schneider, E. (2023). Exploring the Therapeutic Potential of Gamma-Aminobutyric Acid in Stress and Depressive Disorders through the Gut–Brain Axis. Biomedicines, 11. https://doi.org/10.3390/biomedicines11123128.
  3. Persaud, N., & Cates, H. (2022). The Epigenetics of Anxiety Pathophysiology: A DNA Methylation and Histone Modification Focused Review. eNeuro, 10. https://doi.org/10.1523/eneuro.0109-21.2021
  4. Zhang, Q., et al. (2024). Insights and progress on the biosynthesis, metabolism, and physiological functions of gamma-aminobutyric acid (GABA): a review. PeerJ, 12. https://doi.org/10.7717/peerj.18712.
  5. Ghit, A., Assal, D., Al-Shami, A., & Hussein, D. (2021). GABAA receptors: structure, function, pharmacology, and related disorders. Journal of Genetic Engineering & Biotechnology, 19. https://doi.org/10.1186/s43141-021-00224-0  
  6. Johnston, G., & Beart, P. (2024). Milestone review: GABA, from chemistry, conformations, ionotropic receptors, modulators, epilepsy, flavonoids, and stress to neuro‐nutraceuticals. Journal of Neurochemistry, 168, 1179 - 1192. https://doi.org/10.1111/jnc.16087
  7. Roshan-Milani, S., Seyyedabadi, B., Saboory, E., Parsamanesh, N., & Mehranfard, N. (2021). Prenatal stress and increased susceptibility to anxiety-like behaviors: role of neuroinflammation and balance between GABAergic and glutamatergic transmission. Stress, 24, 481 - 495. https://doi.org/10.1080/10253890.2021.1942828
  8. Mitten, E., Souders, A., De Velasco, E., & Wickman, K. (2024). Stress-induced anxiety-related behavior in mice is driven by enhanced excitability of ventral tegmental area GABA neurons. Frontiers in Behavioral Neuroscience, 18. https://doi.org/10.3389/fnbeh.2024.1425607
  9. Banerjee, S., Poore, M., Gerdes, S., Nedveck, D., Lauridsen, L., Kristensen, H., Jensen, H., Byrd, P., Ouwehand, A., Patterson, E., & Morovic, W. (2021). Transcriptomics reveal different metabolic strategies for acid resistance and gamma-aminobutyric acid (GABA) production in select Levilactobacillus brevis strains. Microbial Cell Factories, 20. https://doi.org/10.1186/s12934-021-01658-4
  10. Braga, J., Thongngam, M., & Kumrungsee, T. (2024). Gamma-aminobutyric acid as a potential postbiotic mediator in the gut–brain axis. NPJ Science of Food, 8. https://doi.org/10.1038/s41538-024-00253-2
  11. Icer, M., Sarikaya, B., Koçyiğit, E., Atabilen, B., Çelik, M., Capasso, R., Ağagündüz, D., & Budán, F. (2024). Contributions of Gamma-Aminobutyric Acid (GABA) Produced by Lactic Acid Bacteria on Food Quality and Human Health: Current Applications and Future Prospects. Foods, 13. https://doi.org/10.3390/foods13152437.
  12. Ramos-Ruiz, R., Poirot, E., & Flores-Mosquera, M. (2018). GABA, a non-protein amino acid ubiquitous in food matrices. Cogent Food & Agriculture, 4. https://doi.org/10.1080/23311932.2018.1534323.
  13. Heli, Z., Chen, H., Bao, D., Shin, T., Yejun, Z., Xi, Z., & Wu, Y. (2022). Recent advances of γ-aminobutyric acid: Physiological and immunity function, enrichment, and metabolic pathway. Frontiers in Nutrition, 9. https://doi.org/10.3389/fnut.2022.1076223.
  14. He, C., Wang, B., Chen, X., Xu, J., Yang, Y., & Yuan, M. (2025). The Mechanisms of Magnesium in Sleep Disorders. Nature and Science of Sleep, 17, 2639 - 2656. https://doi.org/10.2147/nss.s552646.
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  16. Marilovtseva, E., Abdurazakov, A., Kurishev, A., Mikhailova, V., & Golimbet, V. (2025). The Role of GABA Pathway Components in Pathogenesis of Neurodevelopmental Disorders. International Journal of Molecular Sciences, 26. https://doi.org/10.3390/ijms26199492
  17. ESPEN Micronutrient Guideline (2022). Clinical Nutrition.
  18. Almutairi, S., Sivadas, A., & Kwakowsky, A. (2024). The Effect of Oral GABA on the Nervous System: Potential for Therapeutic Intervention. Nutraceuticals. https://doi.org/10.3390/nutraceuticals4020015.
  19. Guimarães, A., Seidel, H., Pires, L., Trindade, C., Baleeiro, R., Souza, P., Silva, F., Coelho, D., Becker, L., & Oliveira, E. (2024). GABA Supplementation, Increased Heart-Rate Variability, Emotional Response, Sleep Efficiency and Reduced Depression in Sedentary Overweight Women Undergoing Physical Exercise: Placebo-Controlled, Randomized Clinical Trial. Journal of Dietary Supplements, 21, 512 - 526. https://doi.org/10.1080/19390211.2024.2308262
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