Nos últimos anos, os medicamentos popularmente conhecidos como "canetas de emagrecimento" mudaram a forma como a medicina trata a obesidade. Os resultados são reais e, em alguns casos, notáveis – mas à volta deles cresceu um entusiasmo que é preciso contextualizar.
As canetas têm um potencial enorme, mas não são uma solução mágica. A resposta varia de pessoa para pessoa, os efeitos adversos existem, e a interrupção do tratamento pode trazer de volta o peso perdido. Por isso, funcionam melhor como parte de uma estratégia individualizada, acompanhada por profissionais de saúde e apoiada numa intervenção nutricional adequada1,2. Vamos conhecer melhor o que fazem e como tirar o máximo partido delas.
O que é o GLP-1?
O GLP-1 (glucagon-like peptide-1) é uma hormona que o intestino produz naturalmente depois de comermos. Tem duas funções centrais: ajuda a regular o açúcar no sangue, estimulando a libertação de insulina quando a glicose sobe, e participa nos mecanismos da saciedade, sinalizando ao cérebro que já comemos o suficiente1.
Os agonistas dos recetores de GLP-1, as tais "canetas de emagrecimento", são moléculas que imitam o efeito dessa hormona. Foram inicialmente desenvolvidos para tratar a diabetes tipo 2, mas rapidamente se percebeu que também promoviam uma redução significativa do peso corporal3,4.
Ao contrário do que muitas vezes se pensa, estes medicamentos não "queimam gordura". O efeito vem antes da redução da ingestão energética – isto é, fazem-nos comer menos: aumentam a saciedade, reduzem a fome e atrasam o esvaziamento do estômago, sobretudo nas fases iniciais do tratamento5. Atuam ainda no sistema nervoso central, sobre os circuitos cerebrais que regulam o apetite e a resposta aos alimentos mais tentadores6.
As canetas de emagrecimento são todas iguais?
Não. A eficácia varia de molécula para molécula, o que é como dizer, entre os vários medicamentos disponíveis:
- Liraglutida (ex.: Saxenda®) – perdas médias de cerca de 6% a 8% do peso corporal;
- Semaglutida (ex.: Wegovy® e Ozempic®, indicado para a diabetes tipo 2) – pode chegar aos 12% a 17%;
- Tirzepatida (ex.: Mounjaro®) – atua ao mesmo tempo nos recetores de GLP-1 e GIP, e é hoje a opção mais eficaz, com perdas próximas dos 20%, e até 22,5% em alguns ensaios clínicos7,8
Estes valores são médias observadas em estudos clínicos, mas a resposta real varia de pessoa para pessoa. Há quem perca muito peso e quem responda pouco ao tratamento.
Quais são os efeitos adversos das canetas para emagrecer?
Os mais frequentes são gastrointestinais: náuseas, vómitos, diarreia e obstipação. Costumam ser passageiros, mas podem tornar-se intensos o suficiente para levar algumas pessoas a interromper o tratamento3.
Há ainda situações que exigem vigilância médica, como possíveis complicações da vesícula biliar e pancreatite aguda (inflamação do pâncreas), embora os casos graves sejam globalmente raros1. Como qualquer fármaco, existem contraindicações e precauções que precisam de ser avaliadas caso a caso, razão pela qual só devem ser usados sob prescrição e supervisão médica.
O que o entusiasmo pelos análogos GLP-1 esconde
As canetas funcionam e a evidência clínica comprova-o, mas há três pontos importantes que raramente são discutidos no meio do entusiasmo.
1. Perder peso não é o mesmo que perder gordura
Quando os números na balança descem depressa, nem tudo o que se perde é gordura. Consoante a alimentação, a atividade física e a velocidade do emagrecimento, dá-se muitas vezes uma perda de massa muscular – e o músculo é o que protege o metabolismo, a força e a autonomia3.
É aqui que a nutrição se torna decisiva. Durante o tratamento, é fundamental garantir proteína, energia e micronutrientes suficientes; e estas metas nutricionais ficam ainda mais difíceis de atingir com a quebra do apetite9. Em paralelo, o treino de força deve fazer parte da estratégia sempre que possível, ajudando a preservar massa muscular e funcionalidade.
O objetivo não é apenas fazer descer o número na balança, mas melhorar a composição corporal e a saúde metabólica. Em resumo: perder gordura, não músculo.
2. O risco de défices nutricionais
A redução do apetite e da ingestão alimentar abre a porta a outra consequência silenciosa: a carência de nutrientes, sobretudo quando não há um acompanhamento nutricional adequado. O défice mais frequente é o de vitamina D, seguido de ferro, cálcio e vitaminas do complexo B10. Os estudos que analisaram a alimentação em detalhe encontram ainda ingestão insuficiente de magnésio, potássio, colina e vitaminas A, C, E e K, além de pouca fibra11.
A resposta, porém, não é encher o armário de suplementos. A suplementação por conta própria tem riscos: pode gerar excessos – o ferro e as vitaminas A, D, E e K acumulam-se no organismo – e até mascarar carências. Daí que as análises de controlo, as metas de proteína e a eventual suplementação devam ser sempre definidas por um profissional, de forma individualizada.
3. O que acontece quando se pára o tratamento
Uma das principais limitações destas terapêuticas é a manutenção dos resultados depois de se interromper o tratamento. Boa parte das pessoas recupera peso quando suspende o medicamento, porque os mecanismos biológicos que aumentam o apetite voltam a manifestar-se assim que o efeito do fármaco desaparece6.
É por isso que a obesidade deve ser entendida como uma doença crónica e multifatorial, e não como um problema que se resolve com um tratamento temporário. A alimentação, a atividade física, o sono, a gestão do stress e a relação com a comida continuam a ser os pilares do resultado – durante e, sobretudo, depois do tratamento. Dependendo das necessidades de cada pessoa, podem ser integradas diferentes estratégias alimentares, como o jejum intermitente.
Há ainda uma questão de acesso que não pode ser ignorada: o custo destes medicamentos é elevado e a comparticipação reduzida. Por muito alta que seja a eficácia biológica, o impacto real depende também da capacidade de financiar e manter o tratamento e o acompanhamento ao longo do tempo.
Qual é o papel da Nutrição Funcional?
Enquanto nutricionista, vejo o momento em que se começa uma destas terapêuticas também como uma oportunidade para trabalhar a saúde de forma mais abrangente.
Com a diminuição do apetite, a qualidade nutricional de cada refeição torna-se ainda mais importante. É preciso assegurar proteína suficiente, preservar a massa muscular, garantir uma boa hidratação, prevenir carências e gerir os possíveis sintomas gastrointestinais – tudo ao mesmo tempo, e com menos comida a entrar no corpo. A resposta passa por uma intervenção personalizada, que tenha em conta o metabolismo, a composição corporal, a saúde digestiva e o estilo de vida de cada pessoa, e que transforme a perda de peso numa verdadeira melhoria de saúde.
Também podem ser exploradas estratégias como o mindful eating, que ajudam a desenvolver uma relação mais consciente com a alimentação e a reconhecer os sinais de fome e saciedade, sem recorrer a abordagens excessivamente restritivas.
Não se mede o sucesso pelos quilos perdidos
As canetas de emagrecimento são, sem dúvida, um dos maiores avanços recentes no tratamento da obesidade. Mas o sucesso não pode ser medido apenas pelos quilos perdidos.
Emagrecer com saúde significa preservar músculo, nutrir bem o corpo, melhorar a saúde metabólica e construir hábitos que se mantenham depois do tratamento. O medicamento pode dar o impulso, mas a nutrição e o estilo de vida sustentam os resultados a longo prazo. Se estás a considerar ou já a fazer este tratamento, um acompanhamento em Nutrição Funcional na Bioself ajuda-te a fazê-lo com saúde e equilíbrio.
Referências
Aviso legal
Este artigo não tem a intenção de diagnosticar, tratar ou substituir aconselhamento médico sendo o seu conteúdo apenas para fins informativos. Consulta um médico ou profissional de saúde sobre qualquer diagnóstico médico relacionado com a tua saúde ou mesmo eventuais opções de tratamento. As afirmações feitas sobre produtos específicos neste artigo não são aprovadas para diagnosticar, tratar, curar ou prevenir doenças.