Conceito visual de fígado saudável: mulher a segurar flor vermelha à frente do abdómen, sobre fundo vermelho.
Conceito visual de fígado saudável: mulher a segurar flor vermelha à frente do abdómen, sobre fundo vermelho.

Fígado saudável sem detox ou dietas restritivas

< Voltar ao blog

Fígado saudável sem detox ou dietas restritivas

O fígado é a principal central de biotransformação do nosso corpo, essencial para processar nutrientes, sintetizar substâncias vitais e neutralizar toxinas.  Apesar da popularidade das chamadas “dietas detox”, a ciência mostra-nos que existe um caminho muito mais eficaz e sustentável: a adoção de um estilo de vida equilibrado.

Neste artigo, explico-te,  como apoiar naturalmente o funcionamento do fígado, de forma simples e cientificamente fundamentada, sem recorrer a medidas extremas ou soluções temporárias — e em que situações a suplementação pode ser necessária.

O que faz realmente o fígado?

O fígado é um órgão multifuncional, responsável por mais de 500 processos vitais. Para desempenhar bem estas tarefas, depende de um fornecimento constante de nutrientes, enzimas e antioxidantes, provenientes de uma alimentação equilibrada1. Entre as suas funções mais importantes estão:

  • Biotransformação de toxinas e fármacos.

  • Sintetizar proteínas fundamentais, como a albumina e os fatores de coagulação;

  • Regular o metabolismo dos hidratos de carbono, das gorduras e das proteínas;

  • Armazenar vitaminas e minerais;

  • Produzir bílis, essencial para a digestão de gorduras;

  • Regular os níveis de açúcar no sangue.

O mito das dietas "detox": o que diz a ciência?

A ideia de uma “limpeza hepática” — uma suposta desintoxicação do fígado através de dietas muito restritivas — não tem fundamento científico. Para além de não existirem ensaios clínicos robustos que comprovem a sua eficácia, estas dietas podem ser pobres em nutrientes e até provocar deficiências nutricionais2.

Na verdade, o corpo já possui sistemas de desintoxicação endógenos altamente eficientes, liderados pelo fígado, rins, pulmões e intestinos.

Fatores que sobrecarregam o fígado

Para manteres o teu fígado saudável, o primeiro passo é reduzir ou eliminar os fatores que lhe são mais prejudiciais. A ciência identifica alguns agressores claros, que deves procurar evitar ou controlar:

- Dieta ocidental: caraterizada pelo consumo excessivo de alimentos ultraprocessados, ricos em gorduras saturadas e frutose3;

- Álcool: o consumo elevado de bebidas alcoólicas é uma das causas mais frequentes de doença hepática4;

- Sedentarismo e excesso de peso: a falta de atividade física e a acumulação de gordura visceral estão diretamente associadas à Doença Hepática Gordurosa Não Alcoólica (DHGNA)5;

- Exposição a toxinas: certos fármacos e toxinas presentes no ambiente podem provocar danos hepáticos significativos6.

Nutrição Funcional: o combustível certo para o fígado

A Nutrição Funcional dá prioridade aos nutrientes que o fígado necessita para desempenhar o processo de biotransformação, em que as enzimas hepáticas transformam e eliminam toxinas ou metabolizam certos fármacos. Na prática, isto significa incluir no dia a dia alimentos que fornecem:

Aminoácidos sulfurados (metionina, cisteína): contribuem para a produção de glutationa, um dos antioxidantes mais poderosos do fígado7. As melhores fontes incluem ovos, alho, cebola, brócolos e leguminosas;

Colina: ajuda a transportar gordura para fora do fígado, prevenindo a acumulação excessiva, também chamada de esteatose8. Encontra-se em soja, carne, peixe e na gema do ovo;

Polifenóis e antioxidantes: presentes no chá verde, azeite virgem extra, frutos vermelhos, citrinos e vegetais de folha verde, ajudam a reduzir o chamado stress oxidativo, um processo de desgaste celular9;

Compostos dos vegetais crucíferos (sulforafano e glucosinolatos): presentes nos brócolos (especialmente nos rebentos), couve-flor e couve-de-bruxelas, ajudam a ativar as vias de biotransformação do fígado10;

Compostos da alcachofra e fibras: a alcachofra é rica em fibras prebióticas, que alimentam as bactérias benéficas do intestino. Além disso, contém cinarina, um composto que estimula a produção de bílis, fundamental para a digestão de gorduras e eliminação de toxinas11. Outras fontes de fibras: aveia, sementes de linhaça, chicória e leguminosas;

Curcumina: substância ativa do açafrão-da-índia, com propriedades anti-inflamatórias12. A sua fonte natural, o açafrão-da-índia (curcuma), deve ser consumida com pimenta preta para aumentar a absorção.

Estratégias práticas para um fígado saudável

  1. Adota o padrão alimentar mediterrânico: rico em vegetais, fruta, azeite, cereais integrais e peixe13;

  2. Modera (ou elimina) o álcool: uma das medidas mais eficazes para proteger o fígado14;

  3. Dá prioridade à atividade física: entre 150 e 200 minutos de exercício moderado por semana ajudam a reduzir significativamente a gordura hepática15;

  4. Cuida do intestino: a saúde intestinal reflete-se diretamente na saúde hepática16;

  5. Bebe água suficiente: a hidratação é essencial para eliminar resíduos do metabolismo. [Descobre algumas dicas para aumentar a hidratação: https://bioself.pt/blogs/blog-page/beber-agua-dias-frios]

Para conheceres mais estratégias de apoio à função do fígado, consulta o nosso artigo sobre desintoxicação metabólica.

Gestão integrada e o papel dos suplementos

A doença hepática está frequentemente associada à síndrome metabólica, à obesidade e à diabetes tipo 2.

Embora a alimentação seja sempre o ponto de partida, algumas situações podem beneficiar de suplementos específicos, sempre sob orientação de um profissional de saúde especializado::

- Silimarina (cardo-mariano): um dos suplementos mais estudados, atua como potente antioxidante e ajuda a reduzir a inflamação e a fibrose em doenças hepáticas17;

- Extrato de alcachofra: estudos científicos mostram que pode ajudar a melhorar as enzimas do fígado, reduzir a acumulação de gordura hepática e baixar os níveis de colesterol em pessoas com doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA)18; 

- N-acetilcisteína (NAC): ajuda a reforçar as defesas antioxidantes e a reduzir o stress oxidativo no fígado19;

- Ácidos gordos ómega-3 (EPA e DHA): reduzem a acumulação de gordura no fígado e melhoram os níveis de triglicéridos20.

É fundamental recordar que a suplementação não substitui um estilo de vida saudável e deve ser sempre personalizada e supervisionada por um profissional de saúde.

A verdadeira “desintoxicação” do fígado não vem de um frasco de comprimidos nem de uma dieta “detox” restritiva. O segredo está na consistência: um estilo de vida saudável, com uma alimentação variada e nutritiva, rica em alimentos naturais, prática regular de exercício físico, consumo moderado (ou ausência) de álcool e equilíbrio metabólico.

São as escolhas de todos os dias que funcionam como a melhor receita para proteger o fígado, garantir energia e promover a longevidade.

Promove a tua saúde com a Bioself

Se gostaste deste artigo, explora o nosso blog para leres mais conteúdos educativos sobre temas relacionados com alimentação, suplementação e bem-estar. Também vais encontrar algumas receitas deliciosas.

Podes ainda receber todos os conteúdos diretamente na caixa do correio ao assinares a nossa newsletter. Quando o fizeres, vais ter acesso a uma surpresa: um ebook sobre suplementação alimentar!

Referências:
  1. Scorletti, E., & Byrne, C. D. (2020). Omega-3 fatty acids and non-alcoholic fatty liver disease: evidence of efficacy and mechanism of action. Molecular Metabolism, 33, 116-126.
  2. Klein, A. V., & Kiat, H. (2015). Detox diets for toxin elimination and weight management: a critical review of the evidence. Journal of Human Nutrition and Dietetics, 28(6), 675-686.
  3. Henney AE, Gillespie CS, Alam U, Hydes TJ, Cuthbertson DJ. Ultra-Processed Food Intake Is Associated with Non-Alcoholic Fatty Liver Disease in Adults: A Systematic Review and Meta-Analysis. Nutrients. 2023 May 10;15(10):2266. doi: 10.3390/nu15102266. PMID: 37242149; PMCID: PMC10224355.).
  4. Narro GEC, Díaz LA, Ortega EK, Garín MFB, Reyes EC, Delfin PSM, Arab JP, Bataller R. Alcohol-related liver disease: A global perspective. Ann Hepatol. 2024 Sep-Oct;29(5):101499. doi: 10.1016/j.aohep.2024.101499. Epub 2024 Apr 4. PMID: 38582247.
  5. Hallsworth, K., & Adams, L. A. (2019). Lifestyle modification in NAFLD/NASH: Facts and figures. JHEP Reports, 1(6), 468-479.
  6. Björnsson, E. S. (2022). Drug-induced liver injury: An overview over the most recent findings. Scandinavian Journal of Gastroenterology, 57(9), 1031-1039.).
  7. Helliwell, R. J., et al. (2021). The Role of Glutathione in the Regulation of Immune Responses. Antioxidants, 10(7), 1023.
  8. Corbin, K. D., & Zeisel, S. H. (2012). Choline metabolism provides novel insights into nonalcoholic fatty liver disease and its progression. Current Opinion in Gastroenterology, 28(2), 159-165.).
  9. Soon, C. F., & Tan, Y. M. (2022). Natural Polyphenols in the Management of Non-alcoholic Fatty Liver Disease: A Systematic Review of Clinical Trials. Nutrients, 14(19), 3959.
  10. Sivakumar, A., et al. (2021). Sulforaphane: A promising phytochemical in the chemoprevention of hepatocellular carcinoma. Pharmacological Research, 169, 105658.
  11. Rezakazemi, A., et al. (2023). The effect of artichoke on liver enzymes and ultrasound findings in patients with non-alcoholic fatty liver disease: A systematic review and meta-analysis. Phytotherapy Research, 37(6), 2419-2430.
  12. Panahi, Y., et al. (2022). Efficacy of Curcumin on Treatment of Non-alcoholic Fatty Liver Disease: A Systematic Review and Meta-analysis of Randomized Controlled Trials. Phytotherapy Research, 36(2), 655-667.
  13. Castañeda-Molina, C., et al. (2023). Effect of the Mediterranean diet on non-alcoholic fatty liver disease: a systematic review and meta-analysis. European Journal of Nutrition, 62(4), 1509-1523.
  14. Rehm, J., & Gmel, G. (2023). The role of alcohol in the burden of liver disease: A global perspective. Journal of Hepatology, 78(3), 643-653.
  15. Hashida, R., et al. (2021). Aerobic vs. Resistance Exercise in Non-alcoholic Fatty Liver Disease: A Systematic Review. Journal of Hepatology, 75(1), S134-S135.
  16. Pascale, A., et al. (2023). The gut-liver axis: a gateway for pathogenic factors in the pathogenesis of non-alcoholic fatty liver disease. International Journal of Molecular Sciences, 24(2), 1645.
  17. Abenavoli, L., et al. (2018). Milk thistle in liver diseases: past, present, future. Phytotherapy Research, 32(10), 2202-2211.
  18. Rezakazemi, A., et al. (2023). The effect of artichoke on liver enzymes and ultrasound findings in patients with non-alcoholic fatty liver disease: A systematic review and meta-analysis. Phytotherapy Research, 37(6), 2419-2430.
  19. Amini, M., et al. (2021). N-acetylcysteine for non-alcoholic fatty liver disease: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Clinical Nutrition ESPEN, 45, 239-246.
  20. Scorletti, E., & Byrne, C. D. (2020). Omega-3 fatty acids and non-alcoholic fatty liver disease: evidence of efficacy and mechanism of action. Molecular Metabolism, 33, 116-126.
Aviso legal:
Este artigo não tem a intenção de diagnosticar, tratar ou substituir aconselhamento médico sendo o seu conteúdo apenas para fins informativos. Consulta um médico ou profissional de saúde sobre qualquer diagnóstico médico relacionado com a tua saúde ou mesmo eventuais opções de tratamento. As afirmações feitas sobre produtos específicos neste artigo não são aprovadas para diagnosticar, tratar, curar ou prevenir doenças.

Partilhe este artigo