Distensão abdominal, enfartamento, gases, digestão lenta ou desconforto depois das refeições são queixas frequentes. Perante estes sintomas, é também cada vez mais comum recorrer a suplementos de enzimas digestivas.
Mas precisamos mesmo de mais enzimas para digerir melhor os alimentos? A resposta não é igual para toda a gente. As enzimas digestivas podem ser úteis em casos específicos, mas não são uma solução universal para todos os problemas digestivos. O ponto de partida é perceber para que servem e em que situações há evidência que justifique o seu uso.
O que são, afinal, as enzimas digestivas?
As enzimas digestivas decompõem os alimentos em moléculas mais simples, que o organismo consegue absorver e utilizar. As principais são:
- as amilases, envolvidas na digestão dos hidratos de carbono;
- as proteases, que atuam sobre as proteínas;
- as lipases, essenciais para a digestão das gorduras.
Num sistema digestivo saudável, estas enzimas são produzidas naturalmente ao longo do trato gastrointestinal, da saliva ao intestino, e sobretudo pelo pâncreas, que as liberta no intestino delgado.
O pâncreas produz, no entanto, muito mais enzimas do que precisamos para uma digestão normal – e a má digestão das gorduras só costuma surgir quando essa produção cai para menos de 10% do normal. Por isso, se a produção é suficiente, acrescentar enzimas não aumenta a capacidade de digestão.
Além disso, sintomas como gases, distensão ou enfartamento muitas vezes não se devem à falta de enzimas. Podem resultar da forma como o intestino se movimenta, da fermentação de certos alimentos pelas bactérias intestinais ou de uma maior sensibilidade do sistema digestivo.
Assim, a utilidade de um suplemento depende de vários fatores: os sintomas, a causa por trás deles, a enzima utilizada e o contexto clínico.
Em que situações podem as enzimas digestivas ser úteis?
1. Quando o pâncreas não produz enzimas suficientes
É na insuficiência pancreática exócrina (IPE) que a evidência para o uso de enzimas digestivas é mais sólida1. Nesta condição, o pâncreas não produz ou não liberta enzimas em quantidade suficiente para uma digestão adequada, e a digestão das gorduras é especialmente afetada.
A IPE pode estar associada a doenças como a pancreatite crónica ou a fibrose quística, a determinadas cirurgias ao pâncreas ou a outras situações que comprometam a sua função. Os sinais mais comuns incluem gordura em excesso nas fezes (esteatorreia), perda de peso, distensão abdominal e défices nutricionais.
Nestes doentes, a terapêutica de substituição enzimática pancreática é uma intervenção clínica estabelecida, que melhora a digestão e a absorção de nutrientes, sobretudo das gorduras1,2. Convém, no entanto, não a confundir com um suplemento de enzimas de venda livre. Envolve preparações, doses e estratégias de administração específicas e deve ser orientada por profissionais de saúde.
2. Quando a digestão é difícil sem causa aparente
Há sintomas que podem apontar para um quadro de dispepsia funcional: uma saciedade que chega demasiado cedo, enfartamento persistente depois das refeições, dor ou desconforto na parte superior do abdómen. O diagnóstico é feito quando estes sintomas são incómodos e persistentes, e a avaliação clínica não encontra uma alteração estrutural que os explique.
Um ensaio clínico randomizado, duplamente cego e controlado por placebo avaliou a suplementação com um complexo multienzimático em 120 pessoas com dispepsia funcional3. Após dois meses, os participantes que receberam o complexo apresentaram melhorias na qualidade de vida associada à dispepsia, redução da intensidade da dor e melhoria da qualidade do sono, sem efeitos adversos relevantes reportados3.
3. Quando certos alimentos provocam gases
Nem todas as enzimas digestivas fazem a mesma coisa. Algumas têm uma ação muito específica, o que pode ser útil quando o desconforto surge sempre associado aos mesmos alimentos.
O exemplo mais conhecido é a lactase, que decompõe a lactose do leite e é útil em pessoas com intolerância a este açúcar. Outro é a alfa-galactosidase, que atua sobre certos oligossacáridos presentes nas leguminosas e em alguns legumes, como as couves. Estes hidratos de carbono não são totalmente digeridos no intestino delgado e, quando chegam ao cólon, são fermentados pelas bactérias intestinais. Esta fermentação pode aumentar a produção de gases e contribuir para distensão e desconforto em pessoas mais sensíveis, mesmo quando fazem uma alimentação saudável4.
Há também estudos com formulações que combinam várias enzimas digestivas com ingredientes de origem vegetal. Num deles, feito em adultos saudáveis e controlado por placebo, uma única toma esteve associada a menos sensação de distensão abdominal depois da refeição4.
4. Quando as gorduras não caem bem
Sentir desconforto depois de refeições mais gordurosas leva muitas pessoas a procurar suplementos de lipase, e é fácil perceber porquê. A lipase é essencial para a digestão das gorduras: decompõe os triglicéridos dos alimentos em moléculas mais pequenas, que podem depois ser absorvidas.
O seu papel é mais evidente na insuficiência pancreática exócrina, que, como vimos, compromete a digestão das gorduras e pode levar a esteatorreia, perda de peso e défices de vitaminas lipossolúveis (A, D, E e K)1. Mas há também estudos fora deste contexto clínico: num deles, feito em adultos saudáveis, tomar lipase antes de uma refeição rica em gordura reduziu a sensação de enfartamento depois de comer1. São resultados preliminares, mas sugerem que a lipase pode ter um papel mais alargado.
Ainda assim, nem todo o desconforto depois de uma refeição gordurosa se deve a falta de lipase. As gorduras abrandam naturalmente o esvaziamento do estômago, o que pode prolongar a sensação de peso e, em algumas pessoas, agravar o refluxo ou revelar problemas na vesícula biliar. Se o desconforto for recorrente, vale a pena perceber a causa – e isto aplica-se sobretudo quando vem acompanhado de fezes gordurosas ou volumosas, ou de perda de peso involuntária.
Enzimas digestivas e microbiota: qual a relação?
Esta é uma das áreas mais recentes da investigação sobre enzimas digestivas. Ao alterarem a forma como os alimentos são digeridos, as enzimas tomadas por via oral modificam também o que chega ao intestino. Podem, assim, mudar os nutrientes disponíveis para as bactérias intestinais e influenciar a composição e a atividade da microbiota5.
As proteases e lipases exógenas, por exemplo, têm sido estudadas pela sua possível influência em bactérias dos géneros Bifidobacterium e Akkermansia6. Já algumas enzimas que atuam sobre polissacáridos não amiláceos, um tipo de fibra, poderão gerar substratos que as bactérias intestinais fermentam. Dessa fermentação resultam ácidos gordos de cadeia curta, metabolitos importantes para a saúde intestinal6.
Grande parte destes dados vem, para já, de estudos em animais. É um campo repleto de potencial, mas que ainda não permite tirar conclusões práticas.
Então, devo tomar enzimas digestivas?
Depende. A evidência é mais consistente quando existe uma insuficiência enzimática identificada, como na IPE. Há também resultados interessantes em situações específicas, como a dispepsia funcional ou a distensão associada a determinados alimentos3,4.
Mas sintomas como gases, distensão ou digestão difícil não significam, por si só, falta de enzimas. Podem ter várias origens e, quando se repetem, importa investigá-las.
Um suplemento pode aliviar o desconforto, mas também pode disfarçar o que o está a causar – e isso pode atrasar o diagnóstico de condições que precisam de um tratamento específico, como a doença celíaca, uma doença inflamatória intestinal ou a própria insuficiência pancreática.
Antes de suplementar, perceber a causa
Na Nutrição Funcional, o objetivo não é apenas aliviar o sintoma, mas perceber o que está na sua origem. Distensão, enfartamento, desconforto digestivo ou mudanças nas fezes podem estar relacionados com:
- a composição e o tamanho das refeições;
- alterações da motilidade gastrointestinal;
- intolerâncias alimentares;
- desequilíbrios da microbiota;
- síndrome do intestino irritável;
- doenças pancreáticas ou gastrointestinais.
É por isso que as enzimas digestivas, quando bem indicadas, podem ser uma ferramenta útil, mas não uma solução universal. Em muitos casos, pequenas mudanças na alimentação e nos hábitos diários já fazem diferença.
Se os sintomas persistirem, é importante fazer uma avaliação médica antes de começar qualquer suplemento, sobretudo se surgirem sinais como:
- perda de peso involuntária;
- gordura em excesso ou sangue nas fezes;
- mudanças persistentes do trânsito intestinal;
- vómitos frequentes;
- dificuldade em engolir;
- anemia ou outros défices nutricionais.
Na Consulta de Nutrição Funcional da Bioself, a avaliação gastrointestinal procura identificar os fatores que estão na origem dos sintomas – e, a partir daí, definir uma estratégia nutricional e de suplementação individualizada, em articulação com o acompanhamento médico sempre que necessário.
Referências
Aviso legal
Este artigo não tem a intenção de diagnosticar, tratar ou substituir aconselhamento médico sendo o seu conteúdo apenas para fins informativos. Consulta um médico ou profissional de saúde sobre qualquer diagnóstico médico relacionado com a tua saúde ou mesmo eventuais opções de tratamento. As afirmações feitas sobre produtos específicos neste artigo não são aprovadas para diagnosticar, tratar, curar ou prevenir doenças.