Sabias que a glutamina é o aminoácido livre mais abundante no plasma e no tecido muscular humano? Representa entre 50% a 60% do total de aminoácidos livres no organismo – o que revela bem a sua importância para o bom funcionamento do corpo1,2.
Embora o organismo consiga produzir glutamina por conta própria, a ciência classifica-a como um aminoácido "condicionalmente essencial". Isto significa que, em situações de stress fisiológico extremo – como exercício exaustivo, cirurgias, queimaduras ou infeções – as necessidades do nosso corpo excedem em muito a capacidade de produção, podendo os níveis sanguíneos cair entre 30% a 50%1.
Vamos explorar, com base nas evidências científicas mais recentes, o papel da glutamina como nutriente essencial para o sistema digestivo, o sistema imunitário e a recuperação muscular.
O papel da glutamina
1. Saúde Gastrointestinal
O trato gastrointestinal é um dos maiores "consumidores" de glutamina em todo o corpo. Este aminoácido é o combustível primário dos enterócitos (as células que revestem a parede interna do intestino) e das células do sistema imunitário intestinal3.
A integridade da mucosa intestinal, a camada protetora do intestino, depende da renovação constante destas células. Quando há falta de glutamina, ocorre uma degradação dessa camada e um aumento da permeabilidade intestinal – o chamado “leaky gut”, ou "intestino permeável"3. Nesta condição, o intestino torna-se menos eficaz a impedir a passagem de toxinas e agentes patogénicos para a corrente sanguínea, o que pode desencadear inflamação e alterações gastrointestinais, incluindo distúrbios como o SIBO (sobrecrescimento bacteriano do intestino delgado).
A glutamina promove a expressão das chamadas "junções apertadas" (tight junctions), proteínas que funcionam como uma espécie de vedante entre as células intestinais, mantendo-as unidas e impermeáveis a substâncias indesejadas. Estudos indicam que a suplementação oral com glutamina reduz significativamente a permeabilidade intestinal em adultos, tornando-a uma estratégia valiosa para quem quer cuidar da saúde intestinal de forma mais eficaz3.
2. Reforço da imunidade e proteção contra infeções
A glutamina é indispensável para a proliferação dos linfócitos e macrófagos – os "soldados" do sistema imunitário responsáveis por identificar e combater agentes invasores, como vírus e bactérias. É, por isso, um imunonutriente fundamental3.
A suplementação com glutamina favorece o aumento da Imunoglobulina A (IgA) salivar, o principal anticorpo presente na saliva, que funciona como uma primeira linha de defesa contra microrganismos que entram no organismo pelas vias respiratória e digestiva. Um nível mais elevado de IgA pode traduzir-se numa menor suscetibilidade a infeções respiratórias e numa melhor proteção em períodos de maior vulnerabilidade, como fases de stress físico intenso ou fadiga prolongada4. Ainda assim, o aumento da IgA não significa imunidade total, mas sim um possível fortalecimento da barreira imunitária local.
Adicionalmente, a glutamina atua como precursor da arginina, outro aminoácido, que, por sua vez, estimula a produção de óxido nítrico nas vias aéreas e na cavidade oral. O óxido nítrico tem propriedades antibacterianas e antivirais que conferem uma camada extra de proteção ao organismo4. Na prática, estes benefícios traduzem-se numa redução da incidência de infeções do trato respiratório superior, como gripes e constipações – um efeito particularmente documentado em desportistas de elite4.
3. Recuperação muscular e performance física
O exercício físico intenso provoca dano muscular e coloca o organismo em estado catabólico, um processo de degradação dos tecidos que pode prolongar-se por vários dias. A glutamina ajuda a reverter este processo através de múltiplos mecanismos4.
Um estudo realizado com jogadores profissionais de basquetebol demonstrou que a suplementação com glutamina reduziu significativamente os níveis sanguíneos de creatina quinase (CK), mioglobina e AST – marcadores biológicos que indicam lesão muscular. Em termos simples, isto sugere que a glutamina protege as fibras musculares durante o esforço intenso4.
O treino exigente também eleva os níveis de cortisol, a hormona do stress com efeito catabólico, podendo em simultâneo reduzir os níveis de testosterona, essencial para a recuperação e o crescimento muscular. Estudos indicam que a suplementação com glutamina contribui para manter um rácio testosterona/cortisol mais favorável, atenuando atenuando a queda da testosterona e prevenindo aumentos excessivos de cortisol4.
Para além do equilíbrio hormonal, a glutamina favorece a síntese proteica e acelera a recuperação da força muscular após sessões de treino extenuantes2.
4. O Papel Emergente no Sistema Nervoso Central (SNC)
Uma das descobertas mais interessantes sobre a glutamina diz respeito ao seu papel no sistema nervoso central. No cérebro, existe um ciclo fundamental chamado ciclo Glutamato/GABA: a glutamina produzida pelas células de suporte neuronal (os astrócitos) funciona como ponto de partida para a síntese de dois neurotransmissores: o glutamato, que tem uma função excitatória (ativa o cérebro), e o GABA, que tem uma função inibitória (acalma o cérebro). O equilíbrio entre estes dois neurotransmissores é essencial para funções como a cognição, a resposta ao stress e a regulação emocional1.
Além disso, estudos em atletas associaram a suplementação com glutamina a melhorias no estado de humor e à redução da sensação de fadiga. Estes efeitos podem estar relacionados com a sua ação anti-inflamatória no sistema nervoso central e com o seu papel na eliminação da amónia cerebral – uma substância que, em excesso, pode prejudicar o funcionamento do cérebro e contribuir para a fadiga mental4.
Conclusão
A glutamina é um aminoácido que desempenha um papel importante na saúde intestinal, no funcionamento do sistema imunitário, na recuperação muscular e no equilíbrio do sistema nervoso. Em períodos de maior stress físico ou metabólico, o corpo pode não conseguir produzir glutamina em quantidade suficiente, o que torna a sua ingestão particularmente relevante.
A evidência científica indica que, quando utilizada de forma adequada e personalizada, a suplementação com glutamina pode ajudar a fortalecer a barreira intestinal, reduzir o risco de infeções, melhorar a recuperação física e apoiar o bem-estar mental, sendo uma opção útil em fases de maior exigência para o organismo.
Promove a tua saúde com a Bioself
Se gostaste deste artigo, explora o nosso blog para leres mais conteúdos educativos sobre temas relacionados com alimentação, suplementação e bem-estar. Também vais encontrar algumas receitas deliciosas.
Podes ainda receber todos os conteúdos diretamente na tua caixa de correio ao assinares a nossa newsletter. Ao fazê-lo, terás acesso a uma surpresa: um ebook sobre suplementação alimentar!
Referências
Aviso legal
Este artigo não tem a intenção de diagnosticar, tratar ou substituir aconselhamento médico sendo o seu conteúdo apenas para fins informativos. Consulta um médico ou profissional de saúde sobre qualquer diagnóstico médico relacionado com a tua saúde ou mesmo eventuais opções de tratamento. As afirmações feitas sobre produtos específicos neste artigo não são aprovadas para diagnosticar, tratar, curar ou prevenir doenças.