A queda de cabelo é uma das queixas mais comuns no outono. Alguns estudos registam mais casos de eflúvio telógeno entre julho e outubro1. A primeira reação é, muitas vezes, procurar um champô “milagroso”.
Mas o cabelo é, na verdade, um espelho do que se passa no resto do corpo. Certos défices nutricionais podem estar por detrás de uma queda persistente2,3.
Antes de investires em mais um produto cosmético, explicamos-te o que diz a ciência sobre a nutrição e a saúde capilar.
Qual é o papel da alimentação na saúde do cabelo?
O folículo piloso é a estrutura na raiz que produz o fio. As suas células dividem-se muito rapidamente, e as vitaminas e os minerais são essenciais para essa renovação celular3. Por ter uma atividade metabólica elevada, o folículo é sensível à falta de nutrientes e à restrição calórica e proteica2.
O impacto da alimentação no cabelo pode ser resumido, mais concretamente, de três formas principais:
- Crescimento e renovação: as carências nutricionais podem alterar o ciclo de crescimento do cabelo e afetar tanto a estrutura como o crescimento do fio2,3;
- Densidade e qualidade do fio: num ensaio clínico com mulheres com queda de cabelo, um suplemento de ómega-3, ómega-6 e antioxidantes durante seis meses reduziu a queda e melhorou a densidade capilar4;
- Equilíbrio do couro cabeludo: num estudo com mais de 4000 adultos, um consumo elevado de fruta associou-se a menos dermatite seborreica, a condição que está na origem de muitos casos de caspa. Já um padrão alimentar “ocidental”, rico em alimentos processados, associou-se a mais casos nas mulheres5.
Ora, dietas muito restritivas enfraquecem a estrutura capilar e aceleram a queda: como o cabelo não é um tecido vital, o corpo redireciona os nutrientes para outros órgãos quando a alimentação é deficiente, afetando a força, o brilho e o crescimento dos fios2,6.
As duas tipologias de queda de cabelo mais associadas a causas nutricionais são o eflúvio telógeno6 - uma queda generalizada, desencadeada por um fator de stress físico ou emocional - e a alopecia androgenética - a forma hereditária de queda de cabelo, que afeta perto de metade dos homens e das mulheres até aos 50 anos2.
Em ambos os casos, a evidência científica sugere que os défices nutricionais podem ter um papel relevante. A força dessa associação varia, no entanto, consoante o nutriente e o contexto clínico de cada pessoa7,8.
Quais são as carências nutricionais que provocam queda de cabelo?
As principais carências nutricionais que causam a queda de cabelo estão ligadas à falta de minerais, vitaminas e proteínas fundamentais para a renovação celular nos folículos2,3,8. Destacamos cinco:
- Ferro: a carência de ferro é a deficiência nutricional mais comum a nível mundial e uma causa bem conhecida de queda de cabelo2. A sua relação exata com os diferentes tipos de queda continua, ainda assim, em estudo3;
- Vitamina D: participa na regulação do ciclo do folículo3. Níveis baixos são mais frequentes em pessoas com alopecia areata do que na população gera10;
- Vitamina B12: é necessária à formação dos glóbulos vermelhos. A evidência de uma relação direta com a queda de cabelo é, contudo, limitada3;
- Zinco: tem um papel importante no desenvolvimento do folículo, e a sua carência tem sido associada à queda de cabelo2,3. Numa série de casos, a queda reverteu após a correção do défice2;
- Selénio: os dados sobre a sua carência são escassos. Já o excesso de selénio pode causar queda de cabelo2,3.
Entre estes nutrientes, o ferro e a vitamina D são os que aparecem repetidamente mais baixos em pessoas com queda de cabelo7,11.
Um estudo comparativo publicado no Portuguese Journal of Dermatology and Venereology analisou 50 pessoas com queda de cabelo e permitiu confirmar que os níveis de ferritina e de vitamina D eram significativamente mais baixos nesses casos11.
Uma revisão publicada no Journal of Drugs in Dermatology2 sobre as causas da queda de cabelo em mulheres reforça esta ideia: as carências de ferro, vitamina D e de outros minerais essenciais têm um papel significativo, mas o mais importante é a abordagem individualizada, com uma dieta equilibrada e suplementação criteriosa12.
O que fazer se suspeitar que a queda de cabelo se deve a défices nutricionais?
Se suspeitas que a queda de cabelo se deve à falta de certos nutrientes, o caminho mais sensato é a avaliação da história clínica e alimentar, para identificar fatores de risco de carência. As análises fazem-se quando há indicação para isso2.
Estes são os passos que deves dar:
- Consulta o médico de família ou um dermatologista. Explica quando começou a queda e refere outros sintomas associados, como cansaço, unhas frágeis ou alterações de peso.
- Faz as análises que o médico indicar. A ferritina e a vitamina D são dos parâmetros mais relevantes7,11. A avaliação da tiroide também é importante, porque as alterações hormonais podem causar queda semelhante6.
- Ajusta a alimentação. Garante o consumo diário de proteínas (ovos, peixe, carne, leguminosas) já que a desnutrição proteica pode causar queda de cabelo2.
Neste processo, evita tomar suplementos e multivitamínicos genéricos, porque tomar vitaminas em excesso pode, na verdade, piorar a queda.
Para perceberes melhor todas as causas possíveis da queda de cabelo, para além da vertente nutricional, pode consultar também o nosso artigo sobre as causas da queda de cabelo.
O que fazer para prevenir a queda de cabelo por défices nutricionais?
A prevenção da queda de cabelo por défices nutricionais baseia-se em manter os níveis adequados de nutrientes no organismo e evitar hábitos que impeçam a sua absorção.
As principais estratégias de prevenção são as seguintes:
- Garantir proteína em todas as refeições: consome ovos, peixe, carne magra, feijão ou lentilhas com regularidade. Esta é a base para a produção diária de queratina, uma proteína produzida pelo corpo que forma a estrutura principal do cabelo, da pele e das unhas2;
-
Aumentar o consumo de alimentos ricos em ferro: inclui vegetais de folha verde-escura (espinafre e couve, p.e.) e leguminosas. Combina estes alimentos com vitamina C (como sumo de limão ou laranja) para melhorar a absorção do ferro
13;
- Evitar dietas restritivas: a restrição calórica e proteica afeta o ciclo de crescimento do cabelo2,6;
- Manter a saúde intestinal: o microbioma e a mucosa intestinal precisam de estar saudáveis para absorver as vitaminas e minerais ingeridos2. Mantém uma alimentação rica em fibras e bebe água suficiente;
- Fazer exames de rotina anuais: monitoriza os teus níveis de ferritina, vitamina D e B12 no sangue, pois isto permite identificar quedas nos níveis nutricionais antes de começarem a afetar o cabelo;
- Moderar o café e chá próximo das refeições: estas bebidas reduzem de forma significativa a absorção do ferro de origem vegetal14.
O papel do ferro e da vitamina D na queda de cabelo
A queda de cabelo raramente tem uma única causa. Ainda assim, os défices de ferro e de vitamina D destacam-se como os fatores nutricionais mais consistentemente associados a este problema7,11,12.
Antes de investires apenas em soluções cosméticas, vale a pena perceber o que pode estar a acontecer dentro do teu corpo - e isso começa por uma avaliação médica e nutricional adequada.
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Referências
Aviso legal
Este artigo não tem a intenção de diagnosticar, tratar ou substituir aconselhamento médico sendo o seu conteúdo apenas para fins informativos. Consulta um médico ou profissional de saúde sobre qualquer diagnóstico médico relacionado com a tua saúde ou mesmo eventuais opções de tratamento. As afirmações feitas sobre produtos específicos neste artigo não são aprovadas para diagnosticar, tratar, curar ou prevenir doenças.